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Paulo Afonso-BA, 25 de maio de 2022

Delegada regional de Juazeiro diz que a Lei Maria da Penha é perfeita “A deficiência ainda está no sistema”

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JUAZEIRO – A delegada regional de Juazeiro [Bahia] Lígia Nunes de Sá é pernambucana de Floresta, e em breve será cidadã pauloafonsina, com o título que lhe será conferido pelo vereador Jean Roubert. Homenagem justa a uma policial que se identificou com o município, construiu uma carreira promissora como delegada da Deam até chegar a 17º Coordenadoria Regional de onde comanda, desde março de 2017, o maior aparato da Polícia Civil da região norte do estado.

17ª Coordenadoria da PC, região norte.

“Aqui em Juazeiro são cinco delegacias e oito unidades integrantes, num total de treze delegacias, e quatro especializadas: Deam, Homicídio, Tóxico e Entorpecentes, Furtos e Roubos e a 1ª Delegacia Territorial”, conta Lígia, de sua sala, no Complexo Policial, onde recebeu o Painel para uma conversa de pouco mais de meia hora.

Lígia começou bem jovem a carreira de delegada da PC, em cidades pequenas.

“Eu já fui titular de cidades pequenas, bem no início da carreira. Depois passei para a especializada [Deam] quando substitui Mirela [delegada regional da 18º Coorpin em Paulo Afonso] na licença maternidade do primeiro filho dela; fiquei como delegada adjunta e titular posteriormente na Deam.”

Agora, coordenadora, outras responsabilidades que passam pela cobrança na resolutividade de crimes, gestão e integração das delegacias sob seu comando.

“Como coordenadora regional eu não pratico muito a atividade fim, que é instaurar os inquéritos policiais, ir até as investigações, fazer as formalizações, as oitivas, eu ainda vou, mas não é recorrente. Em casos específicos que eu perceba a necessidade da minha presença. Eu participo ativamente das investigações de homicídios, estou atenta a tudo, até porque preciso responder ao meu superior hierárquico sobres esses crimes, desse modo procuro me assenhorar de tudo o que está acontecendo.  Alguns inquéritos eu avoco para investigar, mas são poucos. ”

Em Juazeiro existe outra particularidade que é a divisa com o estado de Pernambuco, e a cidade de Petrolina, separada pela ponte, sem que se perca do olhar, estando numa avista-se a outra, portanto, as atividades polícias precisam de muita interatividade e parceria. “Eu já conheço quase todos os meus colegas, mas nós sentimos a necessidade de um encontro e vamos organizar para uma inteiração melhor, quase todos os dias a gente precisa estar em contato com eles”, explicou a delegada.

A experiência no comando da Deam de Paulo Afonso, e sua cordialidade em atender ao público juazeirense também lhe rendeu homenagens da Câmara Municipal. “Uma vez delegada da Deam, sempre delegada da mulher”, diz ela, e continua:

“Agora na coordenação, eu estimulo os delegados das unidades integrantes para que eles façam ações que coíbam a prática da violência contra a mulher, além de fazer palestras com temas relacionados às causas das mulheres. hoje eu já faço parte de outros grupos, como a Rede Solidariza que é o combate ao racismo e à homofobia. Tivemos um caso aqui de intolerância religiosa, contra terreiros de candomblé. ”

A imprensa foi surpreendida com a sua promoção, porque então, a senhora se destacava à frente da Deam; começava a obra da nova sede e tínhamos ainda muitas expectativas em relação ao seu trabalho lá, como a senhora se sentiu com a transferência para Juazeiro?

Eu encarei como um desafio. Até um pouco para honrar a Deam também, quando a gente se torna Deam [eu sou Deam] eu me tornei uma delegada da mulher, a gente aprende a encarar os desafios que lhe são postos.

Apesar da promoção o rompimento foi dorido?

Eu me senti valorizada. Porque me foi confiada uma coordenação muito importante que é essa aqui de Juazeiro – uma das maiores da Bahia, e a maior da região norte-, eu me sinto honrada e grata por terem confiado Juazeiro em minhas mãos; foi dolorido e prazeroso porque fiquei ansiosa pelo que viria depois. Por esse desconhecido e poder me testar como profissional. Aqui encontrei equipes e pessoas maravilhosas, e também exerço como coordenadora a continuidade com o trabalho de combate a violência contra a mulher.

Quando a senhora veio para Juazeiro, deixou algum caso inconcluso em Paulo Afonso?

Que eu me lembre ficaram todos fechados. A equipe da Deam de Paulo Afonso sempre muito boa, nós podemos fazer um excelente trabalho. Todos os casos de feminicídios foram concluídos, a maioria dos autores presos; e até os casos de estupros, nós tivemos um caso polêmico: de um estuprador em série [motoqueiro] que subia nos apartamentos até o 1ª andar, e nós elucidamos e ele estava preso até quando eu estava lá.

A situação de Juazeiro é mais grave do que a de Paulo Afonso, no tange à violência contra a mulher?

É maior. Mas antes eu gostaria de fazer um esclarecimento: a violência contra a mulher sempre existiu. Antes, quando uma vítima se dirigia a uma delegacia, ou era maltratada ou aconselhada a fazer as pazes com o marido, ‘volte para sua casa’, ‘você quer seu marido preso?’, hoje após as instalações das deans, as vítimas são encorajadas a denunciar, a não deixar barata aquela violência sofrida. A mídia também tem foco importante nesses casos, daí se tem a ideia de aumento nos casos. A Lei Maria da Penha é perfeita, mas como sistema ainda não conseguimos cumprir tudo que ela prevê. Nesse caso foi importante a lei e as companhas de conscientização. Por exemplo: quando eu fazia campanhas em Paulo Afonso, em minhas palestras, me deparei com a seguinte situação: um senhor me perguntou “então se eu forçar sexo com minha esposa é estupro doutora?”, eu respondi que sim, porque se ela não quiser, mesmo sendo esposo, namorado ou noivo é estupro. Isso há bem pouco tempo. De onde se conclui que ainda precisamos avançar muito no esclarecimento das questões que envolve a mulher. Agora, sobre a sua comparação, aqui em Juazeiro, temos a Vara da Justiça Pela Paz em Casa que trata só sobre o assunto de violência doméstica e familiar com juiz e promotor exclusivos para esses casos, isso é de extrema importância; quando eu cheguei aqui, em 2017 tivemos cinco feminicídios; este ano um, e o autor está preso.

A senhora tem um carinho especial por Paulo Afonso, né?

Paulo Afonso foi uma escola para mim. Foi uma referência de parceria, onde as coisas acontecem, aprendi muito, e só tenho a agradecer aos parceiros, aos órgãos com os quais trabalhei em parceria e as pessoas que me fizeram crescer como pessoa e profissional, à imprensa- que hoje sinto falta.

Lígia me recebeu em sua sala no Complexo Policial de Juazeiro-BA.

 

 

 

 

 

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