PAULO AFONSO– Não foi tarefa fácil para o prefeito Mário Galinho (PSD) transpor o espectro político no qual se encontrava e, passada a eleição, ficar assim tão naturalmente aliado do governador do estado Jerônimo Rodrigues (PT).
Nesse particular, o prefeito de Paulo Afonso consegue a proeza que sua ex-colega, Suzana Ramos (PSDB-Juazeiro) não conseguiu e, findou num único mandato. Seria épico para Suzana ganhar àquela eleição com um comprometimento tão azeitado do governador com Andrei da Caixa (MDB).
Por esse motivo, estar na base governista é, mais que um apoio importante, a única garantia de competitividade ao gestor, dada a complexidade de governar um município com tantas dificuldades estruturais, particularmente na saúde.
Alguém consegue imaginar como estaria Paulo Afonso hoje, sem o apoio do governador para a saúde – ainda que seja também obrigação dele-, resta provado que as ações do governo ultrapassam limites constitucionais.
Voltemos ao ponto. Ainda não é possível prevê se Jerônimo fará campanha explícita em favor de uma reeleição de Galinho, mas há atos na política que comunicam a mesma intenção. Um deles é a distribuição de cargos estratégicos do estado, como aconteceu ao ex-prefeito Anilton Bastos, para ficar em um exemplo.
Jean (PSD), carta fora do baralho
Estranho ao ninho pestista, Galinho foi abrindo flancos ainda na campanha através do então presidente do PSD local, o vereador Jean Roubert. Uma vez prefeito, os Otto deram um peteleco em Jean, e deram ao prefeito não somente a presidência do partido, mais e fundamentalmente, as portas escancaradas do aparelho estadual.
“Jean tinha a indicação de um cargo na Educação. Otto avisou que não pertencia mais a ele, e sim, ao prefeito. A indicada não caiu por muito pedido, súplica mesmo, de outra pessoa com padrinho político diferente, mas balançou demais”, disse a mim um assessor parlamentar, na condição de anonimato, sobre o apetite do Galo por cargos do estado.
Nada para o avanço de Galinho
Em primeiro lugar, convém frisar a desunião que marca integrantes da oposição ao prefeito. Neste momento do jogo político, lideranças como Jailson Oliveira (Progressistas) e Marconi Daniel (PT) que poderiam estar em bloco, caminham separados, tentando, antes de mais nada, firmar-se no front como antagonista de Galinho, e, como é sabido, vão se enfrentar as urnas. Eu quero dizer: Neto Coelho x Marconi Daniel. Dito com outras palavras, a oposição se fragiliza porque tem já seus próprios conflitos.
O PT raiz e sua cara de paisagem. Ou por outra: por que figuras balizares do petismo não reagem ao governo antipopular de Galinho?
Dito isto, o prefeito Mário Galinho decidiu ampliar seu apetite político e passou a disputar, sem cerimônia, todos os cargos possíveis na estrutura do Estado em Paulo Afonso. Em ano eleitoral, o prefeito sabe que não há espaço para ingenuidade. A sobrevivência política exige musculatura, cargos e influência. Estimulado pelo senador Otto Alencar, Galinho resolveu ir à ofensiva e passou a reivindicar postos estratégicos do governo estadual, deixando o núcleo duro do PT local, literalmente chupando o dedo. A movimentação expõe fissuras na base aliada e revela quem, de fato, está jogando xadrez enquanto outros ainda acreditam em jogo de damas.
Nos bastidores, a expectativa é de que Galinho avance sobre todos os cargos hoje ocupados pelo ex-vereador Marconi Daniel, consolidando um domínio quase absoluto da máquina estadual no município. Com isso, o prefeito se fortalece politicamente e monta o terreno para impulsionar seus próprios candidatos a deputado nas eleições de outubro. Trata-se de uma operação calculada, fria e eficiente, típica de quem entende que, na política, espaço vazio não existe: ou você ocupa, ou será ocupado.
Figuras históricas e de reconhecido prestígio do PT em Paulo Afonso atravessam um momento de evidente paralisia política diante do governo de Mário Galinho. Mesmo com trajetória consolidada e influência construída ao longo de décadas, essas lideranças não têm conseguido articular uma reação consistente ao que setores da sociedade classificam como uma gestão antipopular e distante das demandas reais da população.
A dificuldade de enfrentamento revela não apenas o enfraquecimento do partido no cenário local, mas também a ausência de uma estratégia clara para se contrapor ao prefeito. Enquanto o governo municipal avança com decisões contestadas e amplia seu controle sobre espaços políticos e administrativos, o PT tradicional assiste, acuado, à perda gradual de seu escopo político.
Nos bastidores, a avaliação é de que o capital político acumulado por essas figuras históricas tem sido desperdiçado pela incapacidade de leitura do atual tabuleiro político. A falta de unidade, o receio do confronto direto e a dependência de antigas fórmulas explicam, em parte, o silêncio diante de um governo que, para muitos, tem se afastado das pautas populares e do diálogo com os movimentos sociais.
O resultado é um vácuo de oposição que favorece o prefeito Mário Galinho, permitindo que sua gestão avance sem maiores resistências institucionais. Em um momento decisivo, em que a população cobra posicionamentos firmes e coerentes, o PT de Paulo Afonso vê suas lideranças mais tradicionais imobilizadas, enquanto o discurso crítico permanece restrito às conversas de bastidores, longe do debate público que a conjuntura exige.
Foto: Chicó Martins