PAULO AFONSO- A geração Z que hoje está nas ruas, festinhas e curtindo os dramas e maravilhas da iniciação sexual, não faz ideia do que aconteceu há quarenta anos.
O mundo atravessava mudanças comportamentais – como ocorre de forma efervescente hoje –, quando, no início dos anos de 1980 a epidemia de HIV atravessou aquela geração encurtando vidas. Milhares de pessoas morreram porque não havia tratamento, nem política pública que amparasse as famílias devastadas. E mais: o preconceito contra os gays era tão cruel quanto a doença.
Nos anos 80 e 90 a Aids tinha face. Hoje, com os avanços científicos a vida, pode-se afirmar normal, de quem carrega o vírus, cumpre observar que o preconceito persiste. A realidade de quem é soropositivo, em muitos casos, é de extrema vulnerabilidade.
Recentemente, a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab), divulgou dados impressionantes sobre o avanço da contaminação no estado, foram confirmados 11.187 casos nos últimos dois anos, com destaque para os municípios de Paulo Afonso e Rodelas.
O Painel ouviu a respeito destes dados, Adailton Soares, membro do Conselho Municipal de Saúde de Paulo Afonso e que por muitos anos acompanhou os trabalhos da Pastoral da Aids. Ele conhece como poucos a realidade do município e explica que não é possível descansar quando o assunto é prevenção:
“A prevenção a Aids deve ser constante, porque eles estão iniciando a vida sexual sem o devido cuidado. Hoje nós temos uma série de acesso à informação, mas eu acredito que os jovens têm acesso a informações não confiáveis e, assim, não é possível inserir neles a consciência sobre o problema”, pontua.
De acordo com as informações de Adailton, a contaminação cresceu entre jovens acima de 14 anos. “Hoje as pessoas conseguem conviver com o vírus do HIV normalmente. A política do SUS avançou muito, não se fala mais em coquetel da Aids, é uma pílula, e a carga viral quando baixa nesse jovem fica indetectável, ele não transmite o vírus”, acrescenta.
A importância dos testes gratuitos
“Como o próprio nome fala, em cinco minutos você fica sabendo sua sorologia. Se a pessoa positivou terá uma equipe da Saúde para acolher, do Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), e se não positivou, fica a missão de fortalecer a política da prevenção.
Houve falhas dos governos e da imprensa sobre a conscientização para prevenção?
Eu acredito que a política do SUS teve avanço significativo, agora nós falhamos enquanto sociedade, enquanto família e estado. Veja, a família hoje transfere a responsabilidade de falar sobre afetividade paras as escolas e a escola não tem como comportar isso sozinha. Não tem como dialogar, formar rodas de conversas no volume necessário, a escola faz, porém ainda é pouco. E o estado fica no seu território que oferece campanhas e testagem, porém a população desconhece. Os meios de comunicação podem publicar e explicar sobre essas campanhas; deve haver conscientização nos grandes eventos – como a Copa Vela – e, quem praticou sexo sem segurança aproveite a oportunidade e faça o teste rápido.
Há pessoas em Paulo Afonso que convivem com o vírus e sofre muito com o isolamento.
É preciso reforçar a política do acolhimento. Se você conhece alguém que é soropositivo, abrace, acolha, dialogue, porque essas pessoas precisam do nosso carinho e da nossa atenção. São pessoas que estão com o vírus e suas vidas continuam a fluir normalmente. Se houver oportunidade de emprego, indique, pois a maioria das pessoas hoje se tem o vírus está indetectável – se faz o tratamento direitinho acompanhando a carga viral, indo com frequência aos serviços de acompanhamento-, a sua vida não está em risco, está preservada, mas é preciso fortalecer as relações humanas e sociais porque o preconceito dói mais do que o vírus da Aids.