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Paulo Afonso-BA, 4 de julho de 2022

“Deus me deu tudo”, diz o peregrino Luiz Neto após 11 dias caminhando rumo à Aparecida

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neto

SÃO PAULO – A caminhada rumo à Aparecida do Norte, berço da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, movimenta fiéis desde o século 18, e foi aperfeiçoado sendo batizado de “Caminho da Fé”, em 2003 com um trajeto que leva hoje milhares de romeiros até o Santuário de Aparecida.

A santinha negra, encontrada por pescadores às margens do Rio Parnaíba ouviu as preces de um pecador cujos pés estavam em frangalhos, trôpego e exausto que em nada lembra o atlético corredor de Paulo Afonso.

Luiz Neto penou por 11 dias ao lado de outros peregrinos, com quem dividiu comida, água, histórias e a dor, a dor dos calos com a qual precisou conviver já no segundo dia de caminhada.

Kely, a irmã do meio de Neto, o motivou a fazer o percurso. “São muitos caminhos no Brasil, eu fiz a programação para quando saíssemos da pandemia”, conta.

Político, houve especulação de que Neto fosse pagar promessas ou, quem sabe, fazer pedidos ao Divino nesse terreno, ele nega.

“Eu fiz essa viagem para agradecer. Durante a campanha, eu que sou um homem de oração, acordava às 3h da manhã para rezar o Terço da Misericórdia, eu só pedia a Deus que nos mostrasse o melhor para Paulo Afonso – se fossemos nós, ótimo. Não fomos nós os escolhidos; essa viagem não teve conotação política, não levei a bandeira [de Paulo Afonso] por isso, não queria que tivessem essa interpretação. Foi uma viagem de introspecção, de agradecimento, de pedir a Deus que eu melhorasse como pessoa, como profissional, amigo, pai, filho, irmão e marido.”

Luiz Neto no Caminho da Fé. Arquivo pessoal.

“O meu pai foi peão, minha solidão, meus irmãos perderam-se na vida a custa de aventuras…”

“É uma viagem misteriosa, ela te quebra. Por duas vezes eu caí, a gente levantava 5 da manhã, e caminhávamos até as 17h. Eu caminhava com mulheres, senhores, e eu, corredor, estava com bolhas nos pés, e precisava pisar nas bolhas para não machucar a parte boa do pé. Então, à noite, eu drenava, colocava esparadrapos e pomada, e saíamos no dia seguinte.”

As lágrimas pela perda de parentes para a Covid-19, no caminho.

Neto conta que encontrou tipos muitos distintos de fiéis, “de pessoas mais simples a abastadas”, e também, um pai que perdeu o filho para a pandemia.

“A chegada é emocionante porque você consegue o objetivo, mas as emoções são muitas e variadas pelo caminho. Por exemplo: um peregrino tem muito apoio, tem aqueles que fazem promessa e não conseguem andar, então tem aqueles que veem de carro e te dão apoio, eles trazem água, alimento, tudo no carro. Eu encontrei um senhor, de São Paulo, pelo porte, era muito bem de vida, e ele estava há 12 dias acampado no meio da mata, na serra da Luminosa – a mais alta que nós subimos -, com uma barraca e tinha água, barra de cereal, remédio, e estava lá vivendo o luto, o luto pela perda do filho que morreu de Covid. Isso me impactava mais, a história de superação, de luta de cada um.”

“Me disseram, porém, que eu viesse aqui, pra pedir de romaria e prece paz nos desaventos…

Caminho da fé, Aparecida:2021. Arquivo pessoal, Luiz Neto.

“Foram 11 dias passando fome, sede, frio, besouro… Mas meu propósito era agradecer, e hoje eu tenho a certeza que nós devemos ser mais tolerantes, ficar mais próximo de quem a gente ama – que é isso que importa, e mais: nós precisamos de muito pouco para viver, e mais do outro. Levei uma mochila cheia e minha vontade era jogá-la no mato, porque me pesava, acabei com duas roupas, uma para o dia e a outra para a noite, um par de tênis e outro de chinelo. Essa foi a minha grande lição, ser feliz com pouco. Entendi que cada um tem sua missão.”

Em alguns momentos, sem saber se aguentaria encarar o dia seguinte, Neto pensou em desistir, por isso, outra viagem como essa teria que ter propósito.

“É sofrida, e no meio do sofrimento e da dor, você se questiona: e eu preciso passar por isso?, então me vinha a imagem de Cristo, porque eu sofria mais à noite eu tinha janta, tinha cama, e Ele que estava no calvário tendo a morte como destino; então eu via que não estava sofrendo nada, quando caia vinham lá as pessoas me levantar, mas eu dizia: todo castigo para pecador é pouco, não sei porque eu caí, mas Ele sabe porque me derrubou”, finalizou Neto, rindo de si mesmo e da vida.

 

Sou caipira, pira, pora
Nossa Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura
E funda o trem da minha vida

 

 

 

Música: Romaria, Renato Teixeira.

Fotos: arquivo pessoal Luiz Neto. 

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