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Paulo Afonso-BA, 21 de maio de 2022

Edson Chucky “Jânio, feche a bodega”

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Edson Chucky está há dez anos exercendo seu multiartivismo, afinal, seu talento não é comportando numa performance teatral, se estende ao desenho, grafite entre outras modalidades culturais e, por isso mesmo, enfrenta junto a outros artistas uma batalha árdua contra a pedra de tropeço da cultura pauloafonsina fincada num departamento que, como bem explicou Chucky, “está a serviço de celebridades.”

Chuck fez ponderações que muitos de seus colegas gostariam de elencar, mas temem perseguições. Perguntado se havia, num corte de dez anos [porque Jânio Soares está nesta função há um século] alguma coisa boa a ser descrita pela gestão de secretário?, parou, pensou, e não conseguiu dizer nada.

Aliás, a gestão de Soares, é muito bem definida e simbolizada pelo Lindinalva Cabral, sabe-se que chegou uma determinada verba, cujo destino é ignorado, ao passo que o espaço em que devia fomentar a cultura está dominado pelas traças.

Não obstante, criou-se há dois anos, um Plano Municipal de Cultura, para inglês ver. Aprovado pela Câmara, e passado o primeiro ano e já podendo colher os frutos de sua constituição, nada mudou, e não vai mudar.

“O que se gasta com uma celebridade que vem aqui passar uma hora, daria para promover várias manifestações culturais em todos os bairros de Paulo Afonso, integrando os jovens”, disse Chucky.

Vamos à sua entrevista:

Chucky conversa com o Painel sobre a cultura em PA.

 

Como você se define artisticamente?

Eu trabalho com várias linguagens, e costumo me definir como multiartista porque se eu disser que sou palhaço falta um pouco, se eu disser que sou grafiteiro ou desenhista a mesma coisa, comediante etc., eu também costumo dizer que sou articulador cultural, porque para ser artista no Brasil [ aí você pega Brasil, Bahia e Paulo Afonso] não adianta só se preocupar com o seu fazer, ou seja, você deve ir além e criar a ponte para atravessar para o outro lado.

O pauloafonsino tem sede de cultura?

Sim, com toda certeza. Em primeiro lugar, porque temos aqui o que não se encontra em todo lugar: um celeiro de artistas. Só que assim como a questão do turismo que todo mundo fala ‘ah, nós temos um grande potencial’ já passou esse tempo de “potencial” quer turístico ou artístico, e não é visível aos olhos porque inexiste um centro que canalize a produção artística. E o artista é forçado a ser empreendedor porque fazer arte custa caro. Então mesmo quando se tinha o Lindinalva, nós tínhamos um espetáculo para apresentar e quando fizemos as contas saiu mais barato fazê-lo em Bonfim [Bahia] pagando passagem, hospedagem e alimentação, passando uma semana lá divulgando porque no Lindinalva não tinha som, nenhuma estrutura, e nós tínhamos que pagar pelo que não tinha. Isto desencoraja tanto a nós como a outros grupos de fora; então eu vejo diversos espetáculos que o Sesc trouxe sempre lotados; logo não se trata de o povo não gostar, ele não tem é a opção.

Se fôssemos um município com alternância de pessoas no poder, teríamos outras gestões para comparar. Como é lutar por essa causa contra o mesmo empecilho há quase trinta anos?

Essa é uma questão grande. Uma pessoa com a mesma visão. E eu acho que a pior parte é você não ter a escuta. Tem uma hora que você faz as pessoas desacreditarem da cidade, de você. Vemos nossos colegas talentosos indo embora. Você chega e apresenta um projeto e o sujeito acha que vai mexer no bolso dele, que não se trata de uma verba pública para ser aplicada nisto. Então elogiar essa gestão é ir de encontro a você mesmo. São dez anos que eu trabalho aqui, dialogo e proponho, são vários projetos, sementes plantadas nesse solo pauloafonsino e você ver que não há qualquer reciprocidade, que as ideias não são implementadas, então isso desgasta demais.

Há dois anos foi aprovado um Plano Municipal de Cultura. Para que serviu mesmo?

[Risos] Bom, pelo menos fomos à Câmara, conhecemos os mecanismos que regem à cidade, suas questões. Do ponto de vista da classe, acho que amadurecemos muito; agora por parte do poder público não mudou absolutamente nada.

A cultura precisa até que ponto do subsídio?

Ninguém deseja sobreviver de apadrinhamento. Eu mesmo sou contra. Nós temos que prestar serviço à sociedade, empreender. Mas precisamos de estrutura, por exemplo: formação, que é papel do poder público; os espaços públicos adequados e regulamentados, o mínimo que deveria existir. Eu já ouvir do gestor [Jânio Soares] que o artista tem que se virar, ok, então feche a bodega; qual o sentido que tem ele existir como órgão, se não faz parte de sua responsabilidade?, e nós temos sempre que correr atrás de tudo? Não é só se isentar. Nós temos um departamento de Cultura a serviço de celebridades; não falo que deve acabar tudo, mas poderia ser mais justa essa divisão.

E esse investimento nessas festas municipais?

Ninguém até hoje provou quanto retorna de investimento da Copa Vela no município. Onde estão os números? Uma parte do dinheiro vai embora para fora da cidade [com as celebridades] e a outra na estrutura, cuja licitação é levada geralmente por empresas de fora.

A classe artística não deixa de ser desunida para cobrar isto

O maior desafio é perder o medo do diálogo. Nós propomos, não se trata de denuncismos, infelizmente às vezes é preciso porque é o único jeito de chamar atenção. Muita gente tem medo, tanto o departamento como a classe, ambos têm medo de conversar. Não quero ser presunçoso e dizer que tenho a solução, mas temos muita gente talentosa em gestão cultural, coisa que não temos. Falta gestão de projetos.

O que mais?

Revisitar alguns valores. Temos hoje um departamento de Cultura que pensa como iniciativa privada, é um grande equívoco. Assim como em outras secretarias há a necessidade de ir de encontro a valores mercadológicos, é o que deveria acontecer a este departamento. Então não se pode achar que tudo é número, existe a necessidade de fomentar e construir uma ponte que vá no desenvolvimento social dos jovens que sabem o que fazer, e talvez isso vá de encontro ao mercado, mas são princípios que precisam ser respeitados.

 

 

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