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Paulo Afonso-BA, 26 de maio de 2022

Gabriel Calado: “Ao Grande, com Carinho”

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Fostes figura importante na história pauloafonsina, imponente, hoje está silencioso. Ah, Gigante, deve ser triste o desprezo. Eu entendo essa aparência, você parece estar virado para os cânions, conversando com o passado, dando as costas à modernidade. Talvez tenha algum rancor, não sei. Acho que seja coisa da idade mesmo. O Diógenes Rebouças, seu projetista, caprichou na sua feitura. Ainda hoje você é parte da arquitetura moderna da Bahia. Inclusive alguns dos mais antigos moradores do município sequer sabem que você tem o formato do famoso avião 14-Bis. Quantas histórias em teu saguão, quantas famílias, romances, casais no mel, enluarados, quantos segredos ecoam em seu ventre.

O tempo é bom e cruel, Gigante. Infalível. Hoje tua imponência é inaudível. Quantos ares passam silenciosos pelo seu pé direito, alto, ainda hoje moderno. – Olha lá o “Grande Hotel”, falam as pessoas de longe, e logo se distraem.  Hoje você apenas resiste, como resistiu Abel, como ainda resistem vestígios do ‘muro da vergonha, do “Cine Coliseu”, dos “Supermercados Pesqueira”, do “Armazém Sertânia”, este último tendo como proprietário o saudoso Otaviano. Estão todos escondidos atrás de coloridas fachadas. A modernidade é borracha disfarçada de tinta. Ela traiu Abel, Gigante. Ele deu sua última volta em um carro do Corpo de bombeiros, discreto,  e alguns sequer sabiam quem estava ali, imagina!? Uma voltinha somente, por remorso da nossa geração, nada mais. Que dirá você?, calado, quieto, que fica só a observar o correr das águas… Eles esquecem, Gigante.

Poucos lugares no mundo têm tantas histórias como nossa Paulo Afonso. São tantas histórias que, ironicamente, parece que o destino fez você, um Hotel, parar no tempo e dar repouso a algumas das incríveis e importantes histórias dos homens que aqui passaram.  Olha que engraçado: ninguém melhor do que você para hospedar esses momentos. É como se o Engenheiro Alves de Souza viesse sentir seu coração e se hospedasse em um de seus quartos. Talvez Castro Alves, com toda a sua boemia, sentasse em sua varanda e ainda escrevesse suas melancolias. E Delmiro Gouveia atravessasse, lá de Angiquinho, porque somente dali ele enxergava, com os olhos marejando, o que a sua astúcia foi capaz de fazer.

Resista, Gigante! Resista! A borracha da modernidade não conseguirá apagar seus fortes sinais. Você é parte da história e muitas histórias partiram de você. Você é grande. Resista.

 

Artigo: Gabriel Calado. 

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